Dados de várias faces
Dados de várias faces [...] uma certa tortura mental, sádica, transformada em sobrevivência: eis o homem, eis o imaginário a nos conduzir com suas máscaras apegadas à face sem poder, contudo, removê-las. Há tempo para tudo. Igualmente para retirar a máscara, uma vez tendo ultrapassado a área-limítrofe torna-se atemporal e irremovível, assim vemos muitos morrendo: sufocados em seus disfarces tão bem elaborados quando eles trazem a morte de uma vida inexistente. Emboscadas em todos os tempos nas coisas paradoxais, eis o disfarce, somos nossas próprias armadilhas, somos os homens em meio a atalhos com seus jogos de dados de várias faces.
O que ele e Marília fariam não era a decadência da paixão, não era isso a movê-los ao que estava para ser feito. Maldito mundo repleto de ilusões e histórias distorcidas. Tristes ilusões simuladas em outras tantas e fartas de um universo invertido em conceitos banalizados e conformistas, a levar os homens a se encobrirem com palavras, com a única intenção provável: distraí-los de sua existência. Impossível o voltar-se sobre si mesmos, não sabem de onde vêm ou para onde vão, quanto tempo têm. Não tinham direito ao princípio de tudo? Pois o resto seria deles. Estava se cansando de pensar em possibilidades passadas, de nada serviam além de desviá-lo de si próprio, não iria cair na armadilha onde todos sucumbem e continuar andando para lugar nenhum. Caminhariam, ele e Marília, sem disfarces, com certeza isso seria levado pelos outros a um grau insano. Não se importava, há muito não se importava com julgamentos, sua forma de pensar chegara à indiferença. O que era a decadência de um ser humano? ‘Viver a vida’, diziam, sim, era preciso ter coragem para viver além desse pisar cego acompanhado de atalhos sedutores, falsos, muitos se vangloriavam de já o ter encontrado quando era só olhar para o brilho ausente e ver homens tentando colocar, a cada nova manhã, uma máscara de felicidade que nunca existiu, como poderia? Talvez fosse melhor dizer: morrer a vida e permitir à morte se transformar em algo além da vida humana.
O que ele e Marília fariam não era a decadência da paixão, não era isso a movê-los ao que estava para ser feito. Maldito mundo repleto de ilusões e histórias distorcidas. Tristes ilusões simuladas em outras tantas e fartas de um universo invertido em conceitos banalizados e conformistas, a levar os homens a se encobrirem com palavras, com a única intenção provável: distraí-los de sua existência. Impossível o voltar-se sobre si mesmos, não sabem de onde vêm ou para onde vão, quanto tempo têm. Não tinham direito ao princípio de tudo? Pois o resto seria deles. Estava se cansando de pensar em possibilidades passadas, de nada serviam além de desviá-lo de si próprio, não iria cair na armadilha onde todos sucumbem e continuar andando para lugar nenhum. Caminhariam, ele e Marília, sem disfarces, com certeza isso seria levado pelos outros a um grau insano. Não se importava, há muito não se importava com julgamentos, sua forma de pensar chegara à indiferença. O que era a decadência de um ser humano? ‘Viver a vida’, diziam, sim, era preciso ter coragem para viver além desse pisar cego acompanhado de atalhos sedutores, falsos, muitos se vangloriavam de já o ter encontrado quando era só olhar para o brilho ausente e ver homens tentando colocar, a cada nova manhã, uma máscara de felicidade que nunca existiu, como poderia? Talvez fosse melhor dizer: morrer a vida e permitir à morte se transformar em algo além da vida humana.
O perfume de Marília a espalhar-se pelo quarto me desperta de tais divagações, daqui a pouco vamos compartilhar da Nona Sinfonia de Beethoven, soube morrer a vida, talvez. O cheiro de violetas e notas de cravo enchem o ar de um aroma doce e forte, um perfume estranhamente familiar e como se fosse outro. Marília lembra que eu não esqueça de prender no pulôver o lindo peixe trabalhado com filetes azuis. O exótico peixe, que ficará cravado no meu peito por cima da lã, tornara-se uma crença falsa, uma constante fantasia a representar o ‘real’. Em frente ao espelho começo a colocá-lo e vejo pela imagem invertida do reflexo espelhado, no extremo do quarto, a pintura, não menos íntima, representando Werther a tocar com um gesto suave a mão de Carlota, este toque, quase como se os dedos de Werther estivessem a abandonar a pele de sua amada num movimento de ação contrária, sempre instigara em minhas sensações a imagem de uma angústia e um medo não revelados, por que insistira em manter tal quadro em nosso quarto? Tentativa de racionalizar. Um toque perdido no amor que Werther pensara existir fora o que o levara ao suicídio? Refletir se o desespero da perda de um contato acabara por roubá-lo de si mesmo justificaria a demora em enfrentar o destino escolhido? Por certo que fora isto, não Werther? Ah, os idealistas românticos e seu mundo a não ser nada mais do que aquilo que pensam sobre ele, do que se pode ver através do olhar ou no roçar roubado sobre a pele, somente isto. Vejo também a angústia e um atalho final por sombras de um passado de possibilidades, como se isso alterasse algum momento. Passado de possibilidades desdobra-se em diversos finais diferentes, todos verdadeiros em nosso imaginário tão vulnerável, enquanto possíveis, se o atalho tomado fosse outro que não o real, tornando tudo que deixamos para trás abstratamente inútil e fictício. Por que alguém revira suas memórias? Por que um velho se mata? Por que espera toda uma existência para cometer tal ato se não irá muito mais longe? Zaratustra jogava dados e brincava com o determinismo de um ‘deus’ que primeiro negou, depois matou. Como alguém mata o inexistente? De que adianta, os dados nada podem contra a morte, única certeza. Não há essa face nos dados, nada prometem. Hermann, escuta Marília chamá-lo, estou pronta, diz ela. O ritual termina, estão prontos para irem ao teatro encontrarem Beethoven e a Ode musicada de Schiller. Marília pega os cálices de licor e estende um para mim, ainda Werther perturba meus pensamentos e ecoa pelo quarto, ‘qual é o destino do homem senão suportar a parte de sofrimento que lhe toca, tragar seu fel até a última gota? E, se o cálice pareceu demasiadamente amargo aos lábios humanos do deus celestial, por que me farei eu mais forte do que na realidade sou, fingindo achá-lo doce?’ Sinto o líquido amargo escorrer pela garganta. Marília bebe em silêncio. Noto seus olhos aquosos sem expressão de choro, serena e com o olhar úmido termina o licor. Faço o mesmo. Ela pede então que eu leia o texto escrito quando nos conhecemos, sobre Zara e os Dados, quando brincávamos com toda essa história de determinismo e coisas não–escritas sobre o nosso destino. O texto sempre esteve entre nós, o não-escrito também. Leio para ela:
— Zaratustra se fosse jogar algo jogaria dados e não xadrez: os dados são o destino, a probabilidade finita convertida em infinita através do acaso, de um destino não-escrito, lances sem qualquer regra ou estratégia como no xadrez, sim, ele seria um jogador de dados. Os dados não estão escritos para caírem nessa ou naquela combinação, eles são simplesmente lançados como a probabilidade de você ir até o cinema hoje ou não e isso mudar todo o curso de sua existência. O lance é o maior destino, embora alguns desprezem por pensarem somente em suas combinações finitas e possíveis. Sinto-me leve e sem destino, sinto-me pesado e com um atalho a minha frente. Sinto meus pensamentos e os volto para quem não procurou dados perdidos entre as nuvens. Alguém os procurara por lá ? Estou e não estou aqui. Jogo e não jogo dados. Por que jogaria? Para cima voltarei o meu olhar. Continuo o caminho de Zaratustra. Eis que o continuo. Ele carregava dados em seu bolso, quando subiu à montanha e lá ficou por trinta anos. Soube do mar, que transporta, onde foram atirados por cima desse mesmo mar. Soube das águas, que vão além desse mesmo mar, que lá nunca ficariam imóveis. Reconheces e bebes da água que a nenhum lugar pertence. Alguém ainda chora o repouso do nada. Eis que nada importa, não saberão se a chuva não cabe em seus sonhos, tudo se perde apenas em correntezas de sonhos. Sucumbem e se elevam mais tarde em sonhos de versos em mar. Eis que não saberemos jamais quais são as faces de nossos lances, quais são os lances que nos voltam suas faces, quais as faces do destino não escrito, ora sucumbe em turbulências, ora no abismo das águas. Sou apenas mais um dado a ser jogado pelo eterno retorno. Eu não sou um dado nas mãos de deus, faço do mundo um lance de dados. Eu quero ser um dado no fundo do mar a se agitar de forma incontida, a se curvar diante das várias faces de um destino não escrito, além de um passo possível, a cair em abismos cada vez mais profundos para depois da travessia passar por baixo das nuvens, com passos lentos e firmes e ainda que chova e eu precise caminhar sob esses pingos de chuva, eu vou murmurar para mim mesmo: sou um dado em minha própria mão e nada mais.
— Vamos? — diz ela, quando termino de ler, a mão de Marília estendida em minha direção faz meu olhar retornar de novo para o quadro.
— Sim, vamos — respondo — olhando pela última vez o gesto da mão de Werther em direção à Carlota e não consigo evitar um estremecimento letárgico, eu e Marília possuíramos uma química bem mais verdadeira e sem ações repulsivas ou contrárias que o jovem suicida de Goethe.
Entramos no teatro e no silêncio esperado. Em breve a música tomará conta de todos. Se o brilhante músico pudesse ler o comentário de Schopenhauer sobre o fato de falar sobre sua filosofia para uma platéia de surdos, teria composto até a quinta sinfonia, chegou até a nona. O que ele teria de especial para acreditar que os outros iriam ouvi-lo, embora ele não o pudesse mais? Isso era para poucos. Beethoven fora assim. Há um efeito rebote da Nona Sinfonia, passa-se primeiro pelo paraíso enquanto ela soa para nós, depois de acabado o transe todos voltam para si como pedaços humanos e o fim, com a última nota, tem efeito triunfal e depressor, talvez de possibilidades passadas, inexplicáveis, somente a ser aplacada pela repetição da ‘Ode à Alegria’. Um perpetuar de sensações num círculo vicioso de uma salvação que não nos pertence agindo em uma circularidade tentadora e não menos perigosa e fascinante.
Cerro os olhos e percebo a se expandir com a respiração um estado anestesiante, consigo ainda tocar na face de Marília, ela está perdendo o calor, o frio ressurge em mim junto com o entorpecer do líquido do cálice de Goethe, semelhante ao absinto. Sinto muito frio. Venta lá fora? Está chovendo? Alguém ainda está em guerra? Os astros se movem no infinito? À noite, ainda insisto no meu desejo em voltar para a falsa transparência da água? Minhas pálpebras já não se movem, a música soa distante, muito longe, parece Carmina Burana, uma flauta soa perto de minha cabeça, uma flauta com sons azuis, sinto o peixe se agitar por cima do pulôver sobre meu peito, o cheiro de violetas misturado com a escuridão e o silêncio diante de um abstração a envolver a todos como numa panacéia. Tento tocar mais uma vez em Marília, já não posso. Ainda ouço murmúrios, ‘o que o mundo separou ... sim, quem ainda uma só alma pôde no mundo sua chamar! Quem não pode conduza em pranto, para longe daqui seu triste caminhar, eu vos abraço, esse beijo envio ao mundo inteiro, buscai-o então acima dos astros, além das estrelas está sua morada.’ Ainda ouço.
O guarda apaga as luzes e fecha as portas do teatro enquanto todos saem do concerto para o efeito rebote que os aguarda pelo percurso a ser feito até em casa. Lá fora chove sim, também venta e muitos estão em guerra, todos contra todos e contra si mesmos. Os astros talvez se movam para algum lugar. Hermann também tinha razão, a atração pelo metafísico é como o líquido que abraça o peixe em sua redoma de vidro e acaba por afogá-lo. Talvez o som da flauta ainda soe, talvez consiga ainda murmurar: não sou um dado nas mãos de deus, eu faço meu próprio destino e decido a hora em que verifico quantas faces possuem os novos dados. Sou meu senhor e o senhor de Marília e nada nos faltará.
Anna & os Dados de Várias Faces Versus Salmo 132
1999