A Vida
Dirigia o carro de volta para casa sem prestar atenção ao que fazia. A vida era uma coisa insignificante. Até mesmo repulsiva em certos momentos. As pessoas contribuiam para isto. Diria que em pequena parcela, é claro. O fato é que colaboravam. Bom, às vezes também elas eram repulsivas. Esperavam tão pouco para si e tanto para seus corpos. E se diziam lúcidas. E ao lado da lucidez uma dose significativa de altruísmo completava a missão da vida. Nunca tive certeza de minha lucidez ou de meu altruísmo. Nunca tive certeza de coisa alguma. Não poderão dizer que fui altruísta e lúcida, mas também não poderão dizer que fui rígida como se me negasse a mover-me em meio a padrões estabelecidos e bem aderentes a tudo que quis ser. Nunca quis. Precisei mostrar que queria o mesmo que todos. Ainda assim era estranho. Ouvi muitos rótulos. O mundo é feito deles. Se você não é capaz de rotular não é uma pessoa interessante. Rotular é a solução. Salve-se. Rotule-se. Sinto nojo. Desespero e muita tristeza. Você sabe o que é a tristeza ? Não essa do rótulo. Mas a tristeza, a sua, você sabe ? Não, claro que não. O prato a ser preparado para o jantar, as palavras para aquela visita, um francês correto para o cardápio é o que realmente preocupa. Também a moldura do quadro da sala tem igual importância. Não choro. Chorar também é repulsivo. Se as lágrimas falassem algo, nem isso. Mudas e indiferentes. Não tem jeito. Só você para se ajudar. Mas não é um você comum ou normal. Não vou explicar. Você que pense o que quiser, se não quiser pensar procure um prato especial de macarrão, decore palavras que impressionem e treine para tratar a todos que conhecer como meros cobaias de sua pretensa vaidade. A vaidade é uma rainha, quer ser eterna entre tantos. Move. Não. Atira. Pressiona. Não. Exige. Sim. Exige. Vai lá faz o que for preciso. Prove quem é você. A vaidade ilumina. Devo estar errada. E serei feliz de outra forma? Sim. Se conseguir passar para os outros uma carga bem densa de superficialidade e muitas emoções vazias e sem porquê. Inconseqüentes. Ou fazer parte do grupo do chinelinho em frente à televisão. Ou do jornal aos domingos com a salada de maionese à mesa a gritar desesperadamente que é uma mera salada de batatas e creme de ovos. Será engolida como condenação humana. E estes que a condenaram para que pudessem engolir a deliciosa salada, quem são? São eles. O mundo os quer para si. Os mesmos dos pratos de feijoada e chinelinhos de sofá. Tão divinos. Tão divertidos. Corretos, lúcidos e muito, muito altruístas. Como é bom amá-los e ver que existem. Que estão aí. A vontade de comer uma salada de batatas aumentou. Faria a minha felicidade. Amo este mundo feito de domingos tão banais. Batatinhas para todos os gostos. Diferenças a serem compreendidas e idolatradas. Cansei. Que esta tênue luz da madrugada torne cada vez mais tênue o que sinto. Agradeceria. Seria feliz. Normal como o mundo. Concordando com ele. Vivendo nele.
E pensar que um dia confundi tudo isso com silêncio.
Anna K. 1997
Anna K. 1997